Artigo firmeza, feito pela menina Marina para o Jornal ABCD maior, com os camaradas Claudio Cox e Marcelo Mendez.
Você já assistiu a “Mondo Topless”, clássico de 1966 do transgressor cineasta Russ Meyer? E “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, de Sam Peckinpah, de 1974? Mas talvez você já tenha ouvido falar no longa “Shadows”, de 1959, do subversivo John Cassavetes. Esses fi lmes estão num cinema muito perto de você. Na verdade, no seu computador.
O Bandidos do Cine Xangai (www.cinexagairkm.blogspot.com, sem o “n” mesmo em “xangai”), cinevirtual de Marcelo Mendez, Cláudio Cox e Rubens K, disponibiliza filmes e informações sobre obras que influenciaram estilo, montagem, edição e técnicas de filmagem de diretores que hoje lotam as prateleiras das locadoras. “Bandidos” porque evolvem ao cinema tudo o que dele foi tirado, sua essência. Banditismo por uma questão de classe ou necessidade, como diria Chico Science. “Queremos, através de referências, democratizar a informação do jeito que for possível. Pode ser na boa ou tomada”, explica Marcelo Mendez.
Tudo começou com a criação do blog de contos Janela da Boate Xangai. A inspiração, claro, veio do cinema, mais precisamente de “Warriors - Selvagens da Noite”, longa de 1979 dirigido por Walter Hill, precursor do gênero de filmes de gangue, em que, depois de uma reunião de gangues no Brooklin, Nova Iorque, o chefão é morto e acusam um grupo, que dispara em fuga alucinada pela cidade para chegar a Coney Island. Uma mulher passa, pelo rádio, coordenadas para que capturem os Guerreiros (Warriors, em inglês). O radicalismo do roteiro levou Cláudio Cox a fazer locuções cheias destilo e marginalidade para os contos do blog Janela da Boate Xangai.
“O Rubens K nos atentou à linguagem noir que o Boate traria, aí pensei num noir americano dos anos 1930, ou seja, algo sujo e sem o glamour que os franceses deram. O blog é inspirado em pulp fictions - que é literatura barata dos anos 1930 -, filmes americanos B e discos de jazz. Janela da Boate Xangai é ambientado numa imaginária cidade chamada A City, onde nada tem nome nem caráter ”, diz Mendez.
O apreço dos rapazes pela sétima arte, potencializado pelo conhecimento de Cláudio Cox sobre explotation movies dos anos 1960 e 1970 (filmes que exploram com profundidade assuntos como cultura negra, violência, polícia ou sexo), tornou inevitável o uso de referências nas histórias, gerando curiosidade nos leitores, que usavam o espaço de comentários para perguntar sobre diretores, atores e filmes citados. Surgia aí a necessidade de um outro espaço, um cinema virtual. “A internet é imediata, e no Cine Xangai pode-se encontrar informações sobre o filme e a opção de assistir na íntegra. Mas não tem como baixar, o negócio é a exibição, mas vale inclusive como pesquisa”, diz Cox.
De onde vem o estilo
A intenção é, através do Cine Xangai, mostrar de onde vem a espiral de conhecimento, gerar interesse e expor de que forma filmes B são referência para grandes nomes do cinema contemporâneo. “Russ Meyer infl uenciou Tarantino, o diretor Robert Rodriguez fez escola com George Romero, do clássico The night of the living dead. Dario Argento e Sergio Leone também se mostram nas entrelinhas de obras atuais. Tem até um boato que Tarantino vai refilmar Faster Pussycat, clássicão do Russ Meyer”, anima-se Cox.
Provedor pornô
A partir de DVDs próprios, os bandidos do Xangai fazem o uploading dos filmes através de um servidor de filmes pornôs, que realiza isso gratuitamente, mas exige “tags”, que são palavras usadas como referência em sistemas de busca. Isso acabou causando situações engraçadas, como conta Mendez. “Para subir marcord, de Fellini, coloquei como tags: masturbation (masturbação), big tities (peitão), entre outros. Imagine alguém buscar por essas palavras e aparece um clássico italiano de 90 minutos, a pessoa naquela expectativa, esperando a putaria começar, e nada! Bom, mas numa dessa pode surgir interesse por Fellini”, diverte-se.
Este texto foi originalmente publicado no Jornal ABCD Maior, Ano 5, n° 226 de 08 a 12 de julho de 2010.